segunda-feira, 30 de julho de 2012

Grandes Mestres: Goya

A seção Grandes Mestres, que ocorrerá todos os dias 15 e 30, será um retrato dos mais famosos e inovadores artistas que foram selecionados pela editora Abril para compor uma coleção de 25 livros.
Para os amantes das artes, um prato cheio; para os curiosos, a possibilidade de descoberta desses incríveis pintores e escultores que mudaram o seu tempo.

Francisco José de Goya y Lucientes (1746 - 1828)

"A produção de Goya representa uma das mais livres expressões que a arte conheceu. Trata-se de uma testemunha lúcida contra o tradicionalismo arraigado e tenaz da sociedade espanhola, contra a política antiliberal do rei de seu país à época, Fernando VII (1784-1833) e também contra a Revolução Francesa e a epopeia napoleônica. Embora ligado aos círculos oficiais, retratista da corte e próximo à aristocracia burguesa ibérica, seu temperamento pertencia ao mundo dos intelectuais democráticos e aos reformistas iluminados, com quem conviveu."
(Grandes Mestres, Goya, Abril Coleções; página 10)

Retrato da Família de Carlo IV (1800)

Com esta obra, a atividade de Goya a serviço do monarca espanhol atingiu o ápice. O suntuoso núcleo dispõe-se em dois grupos, no centro dos quais se destacam as figuras de Carlo IV e de sua esposa, Maria Luisa di Parma, esta ligeiramente atrás em relação ao marido. Embora dispostos segundo seu grau de importância - hierarquia reforçada pelos vestidos e uniformes masculinos, que ostentam faixas e medalhas -, Goya capta as figuras em um momento de imóvel e bizarro desencanto: basta observar a curiosa expressão do rei, que não deixa transparecer em nada seu poder e autoridade. O retrato oficial da família real transforma-se, assim, em uma fotografia irônica.


Retrato de Isabel Porcel (1805)

Ampliada pelo corte na metade do corpo, incomum na tradição retratística espanhola, a modelo volta os ombros e o rosto para a direita - uma raridade nos retratos de Goya, cujos personagens costumam olhar diretamente o espectador -, mostrando ao observador uma beleza próspera e enérgica. A riqueza dos tecidos do costume espanhol e a aparência penetrante e senhoril da modelo dão ao retrato uma aristocrática elegância. O orgulho contido na própria juventude se mostra na posição decidida dos braços, no fascinante rosto, com grandes olhos castanhos, uma perfeita linearidade do nariz, e com lábios túrgidos, que ressaltam sobre uma pele fresca e pálida.


O Colosso (1808 - 1810)

Em um vale delimitado por duas colinas, uma multidão de homens e animais foge aterrorizada em todas as direções, enquanto uma figura gigantesca, de punhos cerrados e olhar oculto, avança, à esquerda, em pose monumental, contra um céu parcialmente escuro e tempestuoso. Segundo alguns críticos, a obra representaria uma denúncia do sanguinário ataque perpetrado em 1808 à Espanha pelas tropas napoleônicas: o gigante aludiria à guerra, as pessoas que fogem representariam o pânico do povo, enquanto a serenidade do burro em primeiro plano aludiria à cega e surda imobilidade do governo espanhol. Outros críticos associaram a pintura à Guerra da Independência.


Saturno Devora um de seus Filhos (1823)

O Saturno de Goya fica impresso nos olhos do observador e fixa-se na sua memória. É certamente a pintura mais cruel, uma espécie de pesadelo imerso em um fundo ameaçador. O tema deriva da mitologia grega: depois de ter castrado Urano durante a cópula com Gaia (a Terra) e tomado seu lugar no domínio celeste, Cronos (o Saturno dos romanos) enfrenta a profecia que o vê destronado por um de seus filhos e passa a devorar as crianças no seu nascimento. Goya aborda o tema com uma criatividade sem precedentes, alucinada e demoníaca ao mesmo tempo: o sangue mancha o braço do filho e cai sobre os dedos da divindade, tendo já amputado o outro braço e a cabeça do menino. Esse horrível gigante, cujos olhos esbugalhados são atravessados por reflexos ofuscantes e diabólicos, encarna a doença mental, a loucura e a psicose humana.


Atualmente, as obras de Goya encontram-se, principalmente, nos museus da Espanha, Brasil e Estados Unidos. Foi muito difícil escolher apenas quatro obras do pintor e eu teria colocado mais duas, se tivesse conseguido encontrar boas imagens no Google. Mas, infelizmente, não consegui.
O que mais me chama a atenção nos quadros do Goya (e que, consequentemente, quase me fez querer colocar todas as obras dele aqui) é a leveza com que retrata as pessoas, sem traços muito marcados, mas um leve esfumaçado. Por outro lado, em suas obras mais sombrias, chama a atenção a intensidade das figuras retratadas.
Penso que seu olhar peculiar para retratar tanto a realidade ao seu redor quanto sua própria imaginação, transmitindo exatamente o que seus olhos captavam, faz dele um grande mestre.


Bibliografia:

1. Abril Coleções, Grandes Mestres vol. 14, Goya;
2. O artista e o seu tempo; Um Espírito Livre, pág. 10;
3. Retrato da Família de Carlo IV, pág. 82 a 87;
4. Retrato de Isabel Porcel, pág. 94 e 95;
5. O Colosso, pág. 110 a 113;
6. Saturno Devora um de seus Filhos, pág. 138 e 139.


5 comentários:

Rafaela Kulmann disse...

Obras lindas. Gostei muito do Retrato de Isabel Porcel. Gostei também do Saturno Devora um de seus Filhos, que é assustadora e bastante interessante.

Amanda Gabrielle disse...

Não conhecia o Goya, mas as obras dele são bem legais. Porém, achei macabras. Têm muito artista que poe toda a sua dor na obra que acaba passando pra quem a observa. O Goya é um desses. xD

jessica rochafonseca disse...

muito interessante essa coluna do seu blog,"Saturno devora um de seus filhos" e "O colosso" são muito intensas mesmo,eu poderia admira-las por horas,sem cansar.

fellipe disse...

Gostei das obras dele, principalmente o retrato de Isabel justamente pelo seu olhar e da obra de Saturno que é bem interessante, a ilustração dele para o conto da mitologia grega ficou muito legal!

Flavio Oliveira disse...

Vi duas expos, uma aqui outra em Sampa, com série de desenhos dele, é um craque e tem esse lado da angústia.