segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

#Resenha: As Relações Perigosas - Choderlos de Laclos

As Relações Perigosas (Les Liaisons Dangereuses)
Autor: Choderlos de Laclos
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 480

"Les liaisons dangereuses (As Ligações Perigosas), romance epistolar do século XVIII, da autoria de Choderlos de Laclos e publicado em 1782. A obra retrata as relações de um grupo de aristocratas através das cartas trocadas entre si, na época imediatamente anterior à Revolução Francesa, — nobres ociosos e sem escrúpulos dedicam-se prazerosamente a destruir as reputações de seus pares. O enredo tem como foco o Visconde de Valmont e da Marquesa de Merteuil, que manipulam e humilham as restantes personagens através de intrigas e jogos de sedução.
Quando lançado, o livro foi considerado calunioso, pois tratava de outro modo a nobreza francesa, mostrando a história de personagens vis, sem as idealizações da literatura anterior. Mais do que uma crítica à nobreza francesa, o livro é considerado uma obra-prima do gênero, pois adentrou muito a fundo a mente dos personagens, mostrando seus temores, desejos e malícias. Muito peculiar é a maneira como o autor nas cartas conseguiu criar uma personalidade a cada personagem, visto primeiramente pela sua maneira de escrita, e posteriormente por suas atitudes.
No decorrer do livro, ficam claras as intenções manipulativas dos protagonistas, ao mesmo tempo retrata suas fraquezas, como o inesperado amor do Visconde de Valmont pela Presidenta de Tourvel; a carta que retrata a vida da Marquesa de Merteuil mostra os motivos pelos quais ela se tornou tão vil."

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A primeira vez que soube da existência desse livro, foi por conta da adaptação para a TV pela Rede Globo nos últimos anos. Adicionei As Relações Perigosas na lista e me esqueci um pouquinho dele. No entanto, esse mesmo livro seria abordado no meu curso de francês no ano passado e, então, me vi na situação perfeita para, não só adquirir a versão original (em francês), como também a nacional para ler ao mesmo tempo.
As Relações Perigosas é todo escrito na forma de cartas. A ideia de Choderlos de Laclos era que fosse uma espécie de divulgação da correspondência de alguns personagens pertencentes a determinado círculo social da França. Tanto é que o ano delas é parcialmente suprimido e o nome de algumas pessoas mencionadas são também mantidos em sigilo, dando a impressão de que, realmente, essas cartas pertenceram a pessoas de verdade e, posteriormente, foram publicadas.
Em determinados momentos você chega a acreditar exatamente nisso e esse é o ponto mias fantástico da obra de Laclos. Ele constrói seus personagens como uma verdadeira crítica à sociedade de seu tempo e o faz de tal forma que a carapuça poderia servir em muita gente. Não me admira que seu romance tenha causado muito furor quando do seu lançamento.

"Ora, bela amiga, enquanto você se divide entre vários, não sinto o menor ciúme: enxergo em seus amantes meros sucessores de Alexandre, incapazes de, juntos, manter esse império em que eu reinava soberano." - p. 66

Acompanhamos a vasta correspondência entre a Marquesa de Merteuil e o Visconde de Valmont, duas mentes ardilosas, sagazes e muito afiadas. Merteuil está querendo vingar-se de seu antigo amante, pois ele vai se casar com uma menina que, por sorte, faz parte de seu convívio. Para isso, ela deseja que Valmont aja para ajudá-la a desvirtuar a moça e entregá-la impura ao seu pretendente. Nisso, tem início uma arquitetação sem fim.
Os personagens nos são apresentados em pequenos detalhes de suas cartas, uma frase aqui, outra consideração ali e seus caráteres são lentamente construídos. Valmont, por mais que se vanglorie de sua esperteza, preza muito pela aprovação de Merteuil, a quem considera não só como amiga e confidente, mas também como amante. Embora ambos levem uma vida de luxúria, completamente oposta aos valores da época, especialmente no caso de Merteuil, frequentes são os momentos em que eles rechaçam da sociedade e de suas normas e costumes, estando muito acima da ignorância deles, sendo donos de si e do próprio destino.
O alvo da marquesa e do visconde são os jovens pombinhos Cécile e Danceny, completamente apaixonados e desconhecedores das maldades que os aguardam no mundo. Por isso, tornam-se as marionetes perfeitas de dois adultos ardilosos que não se importam como nada mais do que os próprios interesses. E o que lhes move é o seu desejo de vingança e destruição da reputação alheia.

"Fiquei surpreso com o prazer que se experimenta ao fazer o bem; e me inclino a acreditar que essas pessoas a quem chamamos de virtuosas não possuem tanto mérito como gostam de afirmar." - p.78

As Relações Perigosas é aquele tipo de leitura que você fica ansioso para saber o que mais pode vir a seguir. Merteuil e Valmont são cativantes em seus planos, crueldade e falsidade. Você aprende um pouco mais sobre cada um deles a cada nova troca de cartas que são acompanhadas de farpas e regojizes, bem como você tem raiva e muita ansiedade para ver se tantas maldades serão recompensadas da melhor forma possível a todos aqueles que foram atingidos pela crueldade dessa dupla.
A escrita é bastante fluida, embora as cartas, por vezes, sejam longas, nós as devoramos rapidamente e ficamos ávidos por saber mais. No raio de ação dos protagonistas também está uma senhora, a Presidenta de Tourvel que acaba por ser mais uma tarefa de Valmont para desvirtuá-la e deixá-la na ruína, uma vez que é casada e a atormentará com sua sedução e insistência deveras irritante.
É uma leitura brilhante, sagaz e muito interessante em vários aspectos. É uma crítica e, ao mesmo tempo, uma revelação sobre o que se passava na França, em meio à alta sociedade. As regras extremamente rígidas, além da posição praticamente insignificante das mulheres são dois pontos de destaque. E quem bate de frente com elas, quem torna-se a embaixatriz da mudança, é a Marquesa de Merteuil. Ela vai contra a correnteza, põe abaixo todos os parâmetros, zomba da sociedade na qual está inserida e revoluciona a sua própria maneira de viver.

"Para vocês, homens, as derrotas não passam de vitórias a menos. Nesse jogo tão desigual, nossa sorte está em não perder, enquanto para vocês o azar está em não ganhar." - p. 216

As Relações Perigosas é um livro poderoso, perspicaz, cruel e muito ácido. Torcemos pelos personagens, nos horrorizamos, ficamos com raiva e nos sentimos impotentes. Merteuil e Valmont são uma dupla e tanto, mas, como em tudo, há sempre uma ponta solta e que vai se desprendendo ao longo do caminho.
A sacada é em relação à correspondência. Fazer parecer que pessoas de verdade haviam escrito aquilo é muito astuto e você chega a duvidar no meio da leitura de que seja uma obra de ficção. A diagramação torna tudo muito confortável e as páginas viram praticamente sozinhas. Por mais que sejam muitas, você simplesmente não sente o tempo passar.
Esse é um dos clássicos que todos deveríamos ler, a crítica social não é o único motivo, mas o fato de basear-se em personagens tão palpáveis que mal parecem ficcionais. Eles nos convencem de sua causa, se justificam e arquitetam todos os próximos passos, tudo numa frieza impressionante. Nada mais importa que não eles mesmos.
Séculos depois, não é um livro que podemos chamar de fora de moda e, talvez, isso seja o mais assustador de tudo.

"Se me permite, em minha idade, uma reflexão que não se faz na sua: tivéssemos nós clareza sobre o que é verdadeira felicidade, nunca iríamos buscá-la fora dos limites prescritos pelas leis e pela religião." - p. 450

Classificação final:


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