sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

#Resenha: O Evangelho de Loki - Joanne M. Harris

O Evangelho de Loki (The Gospel of Loki)
Autora: Joanne M. Harris
Editora: Bertrand Brasil
Número de páginas: 336

"Com sua notória reputação para trapaças e enganações, Loki é um deus nórdico sem igual. Nascido demônio, é visto com profundas suspeitas por seus companheiros deuses, que jamais o aceitarão como um deles; por conta disso, Loki promete se vingar. Mas enquanto o deus-demônio planeja a derrocada de Asgard e a humilhação dos seus opressores, poderes maiores conspiram contra os deuses e uma batalha é arquitetada para mudar o destino dos Mundos. Do recrutamento por Odin do reino do Caos, através dos anos como solucionador de problemas de Asgard, até a perda do seu posto no desenrolar para o Ragnarök, este é o Evangelho de Loki, a sua longa e curiosa versão da história — e se alguém disser o contrário, não acredite!"

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Se o único Loki que você conhece é este aqui:


Então vamos com calma, pois você pode ter o mesmo problema que eu durante a leitura. A cultura nórdica não é muito explorada. Normalmente, vemos muito mais sobre a cultura grega/romana, chinesa e, até mesmo, celta do que sobre os deuses de Asgard. Eu gosto bastante do personagem da Marvel, interpretado pelo Tom Hiddleston, e fiquei bastante animada com O Evangelho de Loki, para saber um pouco mais sobre o deus da trapaça, tudo isso tendo o ator inglês como personificação perfeita para o que eu encontraria no livro.
De novo, absolutamente ignorante a respeito da cultura nórdica e conhecendo rasamente todos os seus personagens, mergulhei de cabeça na leitura para dar de cara com um livro rápido e, o mais surpreendente, narrado em primeira pessoa, pelo próprio Loki.

"Palavras podem estilhaçar a fé, dar início a uma guerra, mudar o curso da história. Uma narrativa pode fazer seu coração bater mais rápido, derrubar paredes, escalar montanhas... Ei, uma boa trama pode até levantar os mortos." - p.19

Aliás, primeiro erro do livro, para mim: colocar o Loki como narrador. Não porque ele é o deus da trapaça e pouco confiável, mas porque o tom do relato ficou um pouco forçado e sem graça. Acompanhamos a história de Loki desde que ele foi recrutado por Odin e levado para Asgard como seu igual. Ou, pelo menos, era isso que ele achava.
Descendente de demônio (não, ele não é de Jotunheim, pelo menos não a Jotunheim dos cinemas), ele é bem mal recebido pelos outros deuses e tratado com intensa descortesia e desconfiança por eles. Basicamente, tudo o que acontece em Asgard é culpa do Loki. Até o povo é mal acostumado a esse preconceito e, por mais que ele seja uma espécie de protegido de Odin, sua vida não é das mais fáceis.
Mas não dá tempo de sentir pena do Loki porque ele está sempre aprontando. Fazendo alianças, jogando seu charme, seduzindo e construindo uma rede de contatos, ele engana e trapaceia a torto e a direito. Ao longo dos capítulos, que são rápidos de se ler, ele vai contando a evolução de seu relacionamento com os deuses e outros seres que compõem os diferentes reinos. Enquanto isso, o Ragnarok, o fim dos tempos, se aproxima, baseado em uma profecia proferida por Mímir, uma cabeça amaldiçoada que tem a capacidade de prever o futuro e confidencia tudo a Odin.
Loki tem múltiplos interesses e não se importa com nada que não seja ele mesmo. Nem mesmo a sua prole tem a sua atenção, tampouco o seu afeto. Nada é capaz de ficar em seu caminho e ele brinca com a lealdade, a confiança e até mesmo o respeito para conseguir o que deseja.

"Ao lado dos Aesir, estava o filho mais velho de Odin, Thor, conhecido como Deus do Trovão (presumi, no início, que fosse por causa de seus intestinos), um parvo musculoso com mais barba do que cérebro e uma paixão por esportes e por bater em coisas." - p.48

Todo o livro é permeado por essas observações engraçadinhas que, para mim, terminaram de minar minha experiência e a transformou em uma leitura meio chata. Eu imagino Loki com o dom de fazer narrativas pomposas e bastante refinadas, além de um humor bem mais inteligente. Algumas coisas chegavam a ser bem incômodas nessa narração.
O trabalho gráfico do livro é muito bonito, eu gostei bastante da capa, a diagramação é muito confortável de ler e os detalhes das páginas iniciais são bem legais. No começo, temos logo de cara um glossário com os principais personagens e uma breve descrição deles, o que auxilia bastante para nos situarmos na leitura antes mesmo que ela comece.
Somos apresentados também a alguns trechos da profecia e algum ensinamento do Lokabrenna, ou seja, o Evangelho de Loki. Acho que se a autora não tivesse tentado dar um toque de comédia e descontraído, talvez a leitura tivesse toda a magnitude que eu estava tão ansiosamente esperando. Algumas coisas simplesmente beiravam o ridículo. E eu não sei quanto disso é fiel à história dele com base na mitologia e quanto é flexibilização da ficção.
Não estou dizendo que o Loki do cinema que está certo, eu apenas não esperava que a leitura fosse trazer um Loki com linguajar cotidiano até demais para alguém que teria vivido há tanto tempo e cujo comportamento se esperasse alguma coisa mais aristocrática e menos...largada.

"E foi o som de suas risadas que me perseguiu até o meu quarto, onde arranquei os pontos e urrei de raiva, jurando que um dia eu me vingaria deles - de todos eles, principalmente do meu amado irmão -, ao máximo. Com sangue." - p.87

Em resumo, não tiro o mérito da proposta do livro. Trazer um pouco mais da história do deus da trapaça é, de fato, muito diferente e inédito! Infelizmente, por pouco conhecimento, não posso dizer se isto ou aquilo está errado ou foi exagero ou se está certo.
Infelizmente a leitura não foi tudo aquilo que eu esperava, o que é realmente uma pena. Não digo que é ruim, apenas não funcionou para mim. Não é uma leitura desperdiçada, apenas acho que poderia ter sido desenvolvida de forma diferente. Ou talvez eu esteja por demasiado apegada ao Loki cinematográfico e esteja esquecendo de onde ele realmente veio. Mas, essa foi a sensação que tive enquanto avançava pelas páginas de O Evangelho de Loki.
Eu indico o livro se você, como eu, tem grande admiração pelo personagem e curiosidade para descobrir mais sobre ele. Mas, talvez seja importante ressaltar para que grandes expectativas não sejam criadas, do contrário...


"Poderia ter impedido Ragnarök. Mas os deuses, com sua arrogância e ganância, deixaram clara a minha posição. Eu jamais seria um deles. Eu sabia daquilo agora. Estava sozinho. E assim sempre seria. Aprendi minha lição muito bem dessa vez." - p.88


Classificação final:

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