domingo, 31 de dezembro de 2017

#Resenha: A Diferença Invisível - Julie Dachez e Mademoiselle Caroline

A Diferença Invisível (La Différence Invisible)
Autora: Julie Dachez e Mademoiselle Caroline
Ilustradora: Mademoiselle Caroline
Editora: Nemo
Número de páginas: 200

"Marguerite tem 27 anos, e aparentemente nada a diferencia das outras pessoas. É bonita, vivaz e inteligente. Trabalha numa grande empresa e vive com o namorado. No entanto, ela é diferente. Marguerite se sente deslocada e luta todos os dias para manter as aparências. Seus movimentos são repetitivos e seu universo precisa ser um casulo. Ela se sente assolada pelos ruídos e pelo falatório incessante dos colegas. Cansada dessa situação, ela irá ao encontro de si mesma e descobrirá que é autista – tem a Síndrome de Asperger. Sua vida a partir daí se transformará profundamente."

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A Diferença Invisível é o tipo de livro que vai além de apenas entregar uma história em quadrinhos ao leitor. Além de um enredo praticamente biográfico, esta história tem a incrível capacidade de informar e ensinar o leitor sobre a Síndrome de Asperger. A Síndrome de Asperger é um dos muitos espectros do autismo e é uma doença que precisa ser levada a sério, mas que ainda hoje encontra muita resistência e preconceito por parte das pessoas, especialmente pela falta de informação.
Digo isso porque eu era uma dessas pessoas que pouco sabia sobre o que era ter a Síndrome de Asperger. Reparei no meu preconceito pela forma como fui reagindo à história. Marguerite chegou a me irritar com seu comportamento cheio de manias, detalhes e incômodos. Parecia que nada estava bom para ela.
Mas é só quando vamos acompanhando sua descoberta de que algo, realmente, é diferente nela que a faz sensibilizar-se com coisas que parecem normais para nós é que realmente compreendemos (e aprendemos) sobre o que é essa Síndrome e como ela pode ser tudo, menos frescura.

Desde o começo nós sabemos que Marguerite é diferente. E não é só pelos desenhos em tons de cinza que preenchem as páginas ou a forma como seu semblante parece sempre tenso e tristonho. São seus atos, seus hábitos e o esforço tremendo que ela despende para mantê-los e ocultá-los ao mesmo tempo de todos ao seu redor.
Trabalhando em uma grande empresa, com escritórios separados por pequenas baias, nós temos uma noção do quanto cada ruído, cada atitude de seus colegas a impacta e faz com que ela se feche ainda mais para o mundo exterior. As pessoas parecem não entender seu jeito metódico, recluso e "antissocial". Elas tiram sarro do modo como ela nunca aceita almoçar junto ou como nunca entende uma piada.
Mas tudo isso é realmente muito estranho, até para nós, leitores. Eu, como uma completa leiga acerca da Síndrome de Asperger, me sentia incomodada pela aparente "falta de sal" da protagonista. Ela não entendia ironias, sarcasmos, esperava por ordens diretas e específicas do que deveria fazer, tinha sua rotina meticulosa todos os dias e essa tranquilidade era quase acomodada demais para o meu gosto.
Até mesmo seu namorado, com quem dividia um apartamento, não compreendia porque ela nunca ficava muito tempo nas festas na casa de amigos ou porque parecia dar chilique todas as vezes em que queria ir embora. Depois, quando compreendemos cada traço de seu comportamento e como isso era um mecanismo desesperado para ela tentar se ajustar à vida social, tudo muda. Nos sentimos culpados por ficar bravos com ela.

Marguerite não sabe o que a faz ser diferente. Na sua busca pelo que a deixa "desajustada" perante a sociedade, ela encontra muitos obstáculos. Desde médicos aos próprios parentes e poucos amigos que possui. Não é nada. Está procurando coisas que não existem. Eles a conhecem desde sempre, é só o seu jeitinho.
Até que ela recebe o diagnóstico de Síndrome de Asperger. Ninguém parece querer acreditar. O namorado, a mãe, a irmã, o médico que cuida dela desde a infância, o chefe, os colegas de trabalho. É tudo muito difícil para Marguerite assimilar, mas ela vai em frente, vai pesquisar sobre sua condição e, mais importante, vai cuidar dela mesma.
Uma condição psiquiátrica como essa é muito variável e até mesmo a Síndrome de Asperger pode se manifestar de diferentes maneiras em diferentes pessoas. O autismo é muito mais do que vemos representado (às vezes muito mal) em filmes, séries, novelas e livros. Uma pessoa pode, sim, ter um tipo de autismo e aparentar normalidade, apenas com algumas discrepâncias, mas fica claro em A Diferença Invisível que isso jamais deve ser deixado de lado.

Sozinha, Marguerite finalmente encontra as respostas para as perguntas de uma vida inteira e aprende a viver consigo mesma de um jeito totalmente diferente. O que antes era cinza e sufocante, começa a tomar novos contornos e cores e, assim, ela é capaz de compreender a si mesma e trabalhar em sua condição para melhorar e ter uma vida mais saudável.
A Diferença Invisível é um título autoexplicativo quando você finaliza a leitura. Marguerite era, sim, diferente. Mas essa distinção acabava sendo ignorada pelas pessoas, rotulada de frescura, esquisitice, enfim, algo a ser relevado. E, ao final, temos um pequeno manual sobre a Síndrome de Asperger que, com a leveza de uma história em quadrinhos, tem o imenso poder de entreter e informar ao mesmo tempo.
É uma leitura impactante e muito educativa. Um livro que eu indico a todas as pessoas porque nós, muitas vezes, rejeitamos aquilo que não compreendemos, procuramos por respostas prontas e plausíveis ao invés de investigar a fundo. Eu aprendi muito sobre a Síndrome de Asperger e ter Julie Dachez espelhada em Marguerite, pude ter uma ideia de como era uma sua vida antes e depois do diagnóstico. Ter uma condição psiquiátrica não é o fim do mundo e ouvir e compreender as pessoas pode ser muito mais esclarecedor do que se ater às suas próprias convicções.

Classificação final:

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