domingo, 31 de dezembro de 2017

#Resenha: O Diário de Bridget Jones - Helen Fielding

O Diário de Bridget Jones (Bridget Jones's Diary - Bridget Jones #01)
Autora: Helen Fielding
Editora: Paralela
Número de páginas: 288

"Bridget Jones já é uma personagem querida por milhões de leitores. Seja pelas desventuras amorosas ou pelos problemas com os pais, é muito fácil se identificar (e se encantar) com a protagonista criada por Helen Fielding. Nesta nova edição comemorativa dos vintes anos de lançamento do primeiro livro os fãs antigos terão a chance de reencontra-lá, e os novos leitores descobrirão uma paixão por este clássico!"


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Bridget Jones sempre foi aquele assunto que todo mundo levantava de vez em quando e eu nunca tinha a menor ideia do que estavam falando. Até que um belo dia eu tomei coragem e fui assistir na TV para realmente entender o motivo de todo mundo falar tanto desse filme. E foi risada na certa.
Ri tanto com a história completamente desastrada que, algum tempo depois em um invejável saldão da Livraria da Vila, consegui o livro por um preço bastante vantajoso e finalmente tive a oportunidade de ler.
Apesar de ter sido publicado em 1996, O Diário de Bridget Jones é praticamente atemporal. Escrito, literalmente, em forma de diário, nós acompanhamos a narrativa de Bridget Jones: solteira, mais de 30 anos, lutando contra a balança e contra o vício em bebidas e cigarros.
Bridget tem um emprego numa editora de livros e é muito apaixonada pelo seu chefe, Daniel Cleaver. Mas digamos que ela não leva muito jeito para as coisas e praticamente se autossabota o tempo inteiro. Não contribui muito para sua autoestima o fato de estar solteira em plenos 30 anos e totalmente fora do peso que considera desejável.

"E porque há outras formas de viver a vida. Uma em cada quatro pessoas mora sozinha, a maioria dos membros da família real é solteira e, segundo uma pesquisa, os homens do país são incasáveis, por isso existe uma geração inteira de mulheres solteiras, como eu, que têm renda, casa própria, se divertem muito e não precisam lavar as meias de ninguém." (Sharon para Bridget) - p. 45

Ao longo de um ano inteiro vamos acompanhando as tentativas de Bridget largar o cigarro, parar de beber, controlar sua ansiedade, que pode se desdobrar nas atitudes mais desenfreadas possíveis e, claro, suas incontáveis peripécias que quase sempre culminam em um mico enorme. Sinceramente, não há personagem que cause mais vergonha alheia do que Bridget Jones, você fica, literalmente, morrendo de vergonha por ela.
A relação com os pais é um pouco distorcida, uma vez que a mãe não mede esforços em socializá-la ao máximo para que consiga um bom partido, mesmo com a "data de validade" expirada há, pelo menos, uma década. No trabalho, Bridget também não é um poço de popularidade, precisando exercitar-se constantemente contra uma colega de trabalho que acha que manda nela.
Além disso, temos os três melhores amigos: Tom, Sharon e Jude que, à parte da grande habilidade de escutar Bridget em suas disputas internas, são quase tão inseguros e voláteis quanto ela. E, é claro, há Mark Darcy.
Não se surpreendam com a semelhança de nome com um grande personagem da literatura: Fitzwilliam Darcy, de Orgulho e Preconceito. Conforme avançamos na leitura, existem muitas semelhanças que são difíceis de ignorar, embora O Diário de Bridget Jones não possa se encaixar como uma releitura.
Darcy é o bem-sucedido advogado de direitos humanos e que, infelizmente, está sempre presente quando Bridget entra numa enrascada. Para ela, não há nada mais humilhante do que tê-lo por perto em suas furadas e micos, mas, ao que parece, é como tem que ser. E não falta esforço de sua mãe e a grande amiga dela, Una, para tentar juntá-los como casal, tornando tudo ainda pior.
Será que em doze meses Bridget será capaz de alcançar o peso desejado? Será que ela encontrará um par para chamar de seu? E a vida profissional, ainda haverá tempo para uma guinada? Cada página de cada mês será capaz de tecer o dia a dia de uma personagem atrapalhada, desafortunada e muito, mas muito insegura.

"Nossa cultura é obcecada por aparência, idade e status. Mas o que vale mesmo é o amor." - p. 80

É inevitável pensar que temos um pouco de Bridget Jones em nossas vidas. Seja sua eterna luta contra a balança, a ampla capacidade de falar as coisas na hora errada ou até mesmo a insegurança quanto ao nosso próprio potencial.
Talvez seja por isso que essa história é um completo sucesso, mais de vinte anos depois de sua publicação. Como disse no início, ela é totalmente atemporal. Porque questões com as quais Bridget lida em sua vida ainda são totalmente pertinentes hoje em dia: a cobrança para o encontro do par perfeito na idade perfeita; a pressão para ser bem sucedida na carreira profissional, a importância dos amigos para o desabafo e o cuidado.
Impossível não se identificar com pelo menos uma das situações pela qual nossa desafortunada personagem passa ao longo de sua história. Seja aquele almoço em família que terminou em um mico enorme ou quando seu aniversário foi um desastre ou aquele encontro que não deu nada certo. O relacionamento de Bridget Jones consigo mesma, com homens, com a família e os amigos é completamente desajeitado. É claro que nem sempre temos esse nível de desastre, mas a reunião de tantas inaptidões pode beirar o absurdo.
O Diário de Bridget Jones é divertido e diferente do filme em muitos aspectos. Tive a oportunidade de comparar por ter assistido o filme antes, então fui identificando as divergências que funcionaram em parte. Um dos pontos que me incomodaram no livro foi justamente o formato de diário. Normalmente eu adoro livros com narrativas diferentes, mas neste caso simplesmente senti que faltou a exploração de diferentes pontos de vista além do da própria Bridget. Tudo fica muito restrito ao que ela está escrevendo e algumas situações podem ficar insatisfatórias no desenrolar.
Outro ponto que me incomodou foi a exacerbação dos "defeitos" dela. Acho que nunca vi uma personagem tão desastrada quanto ela e que passasse tanta vergonha. Às vezes eu precisava fechar o livro e respirar fundo porque estava ficando com vergonha por ela e isso é um sentimento bastante desconfortável.
Por último, mas não menos importante, foram os amigos. No momento em que Bridget mais precisava, Tom, Sharon e Jude pouco ajudavam ou tornavam a situação ainda pior. Para mim, não eram amigos nos quais se podia contar, menos ainda para os quais se podia pedir alguma sugestão que não culminasse em desastre porque tudo o que eles diziam para não fazer, eles mesmos acabavam fazendo e eu ficava com a maior cara de interrogação.

"Se você está sem companhia aos trinta anos, a chateação menor de não ter um namorado - não fazer sexo, não ter ninguém com quem sair no domingo, chegar nas festas sempre sozinha - fica ligada à ideia paranoica de que isso se deve à sua idade e que você já teve o último namorado e a última transa da sua vida e é tudo culpa sua, por ser tão agressiva ou tão teimosa e não ter sossegado o facho quando era jovem." - p. 135

À parte desses "defeitos" do livro, O Diário de Bridget Jones traz uma forte crítica social: por que nós cobramos tanto das mulheres? Por que elas precisam de uma idade certa para namorar, casar, ter filhos, ser bem sucedida profissionalmente enquanto que os homens não têm igual cobrança?
Bridget tem 30 anos e já é quase uma pária social por ser solteira e isso está muito intrincado no livro, tanto que influencia em seu comportamento exagerado e na tentativa desesperada de perder peso, descarregando essa ansiedade nos cigarros e na bebida, além da comida. Em resumo: Bridget está presa em um ciclo vicioso de ansiedade para atingir as expectativas da sociedade.
E, embora esse livro seja bastante engraçado, você não percebe uma solução satisfatória para a personagem. Mark Darcy é, de longe, o personagem mais interessante de toda a história e é muito deixado de lado. Eu fiquei muito curiosa para saber um pouco mais dele, mas seu relacionamento com Bridget vai aos trancos e barrancos até culminar rapidamente em algo nas últimas páginas do livro.
Para mim, faltou mais foco nas partes interessantes e a narrativa perdeu-se em dias de autopiedade, bebedeiras e muitas calorias. Essa mulher precisava mesmo é de uma amizade que erguesse seu astral e de um homem que exaltasse suas qualidades ao invés de vê-la lutar contra padrões que deseja tão desesperadamente alcançar. Acho que não foi dessa vez que Bridget Jones teve um final feliz.

"Não sirvo para nada. Nem para arrumar um homem. Nem para a vida social. Nem profissional. Nada." - p. 208

Gostei demais dessa nova edição da Paralela, a capa minimalista e de cor vibrante deu novo fôlego a esta história. A diagramação está confortável e o formato de diário deixa a leitura fluida. Algumas notas de rodapé foram bem-vindas, mas em outros casos eu precisei adivinhar um pouco as referências e algumas informações.
No mais, é uma leitura divertidíssima para deixar na cabeceira e ser acompanhada lentamente porque muito das peripécias de Bridget Jones podem deixá-lo zonzo.

Classificação final:



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